Então, ordenou o rei aos serventes: Amarrai-o de pés e mãos e lançai-o para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes (Mateus 22:13).
Derramou o quinto a sua taça sobre o trono da besta, cujo reino se tornou em trevas, e os homens remordiam a língua por causa da dor que sentiam. (Apocalipse 16:10).
Acordei cedo. Cedo mesmo, umas seis da manhã, me vesti e fui pro dentista pra fazer a cirurgia que já há algum tempo era necessária. Vou arrancar um siso que me incomoda. Me avisaram que não era um procedimento simples, tal como extrair um dente qualquer, coisa que um clínico geral poderia fazer. Com o siso é diferente. O profissional que tem competência para arrancá-lo recebe, inclusive, um nome diferente: cirurgião buco-maxilo-facial. Não estava apreensivo, muito embora soubesse mais ou menos o que me aguardava. Mais ou menos.
Peguei o ônibus e fui lendo um livro no caminho, coisa que fiquei fazendo enquanto aguardava, já na sala de espera da Clínica dos Acidentados, o cirurgião chegar. Depois, desisti de ler, e dei uns bons cochilos ali mesmo, sentado. O dentista chega carregando o próprio café da manhã: um copo plástico descartável contendo café com leite, mais um salgado, tudo bem guardado em um saco plástico transparente, como é comum quando se compra o desjejum na esquina e se responde “sim” à pergunta: é pra levar? Ninguém repara nele, porque ele é um velinho, um pouco calvo e veste uma roupa qualquer. Já são 08:30h e ele está atrasado. Eu não tenho pressa nenhuma.
Logo o recepcionista chama meu nome e então as coisas começam a acontecer. Sou levado a uma sala onde recebo um saco plástico escuro, em que devo guardar minha roupa.e meu livro. Me entregam também pantufas e touca transparentes e uma bata, as quais eu visto, ficando com boa parte da costa e da bunda de fora. Em seguida, mesa de cirurgia. Fico deitado, relativamente calmo. Um apoio para o meu braço esquerdo é montado e recebo uma agulhada de soro. O líquido fica pingando e assistentes do cirurgião jogam cobertores nas minhas pernas e tronco, enquanto ele faz uma assepsia geral com um algodão melado em gel marrom na minha cara e boca. Ele diz: “ah, me esqueci de dizer que não era pra tu vires com esta barba” e, já virando para um outro cirurgião que chegara para atuar junto: “imagina só o risco de infecção”. Um pano, com uma abertura em forma de círculo no centro, é jogado na minha cara, deixando, do meu rosto, praticamente só minha boca à mostra para a cirurgia.
O trabalho começa com anestesia, e anestesia significa, como todo mundo sabe, agulhadas na gengiva. Atrapalho o procedimento perguntando o que vão me receitar para o pós-operatório e me respondem pedindo que fique calmo, pois a cirurgia mal começara. A minha tréplica é em forma de piada, sugerindo que me receitassem morfina. Alguém diz: “Michael Jackson”. E eu, silenciosamente, “Awww!”
O dentista cavuca, cavuca, eu sinto dor, ele aplica mais anestesia e cavuca mais, eu sinto dor, ele aplica mais anestesia, cavuca, eu sinto dor, e dá-lhe mais anestesia e cavucadas sem fim no dente miserável. Após aproximadamente umas duas horas de injeções, boticões e brocas cirúrgicas massacrando um siso aparentemente de adamantium, ainda sinto dores, e me avisam que vou ter que ajudá-los, porque já tomei anestésico demais. Como não consigo conter o reflexo à dor de um dente sendo arrancado com um pedaço de ferro, peço pra um deles segurar minha cabeça. Assim é feito, e o último pedaço do dente é arrancado. Comemoro mentalmente, mas logo sou avisado que a raiz ainda ficara na gengiva. Ok, vamos lá de novo, “no pain, no gain”, “quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor”, só mais uma vez. “Who’s bad?”
Mission accomplished, fico mordendo um chumaço de algodão enquanto recebo instruções de como proceder em casa, para evitar dores. Com a receita odontológica nas mãos e um lado inteiro do rosto anestesiado, sou levado a uma sala, onde encontro meus semelhantes: umas duas dezenas de pessoas (dentre elas acho que duas mulheres e, com certeza, uma criança) sentados em cadeiras, trajando a mesma bata constrangedora, as mesmas pantufas e toucas, transparentes e descartáveis, um clã secreto de pessoas constrangidas e ridículas que eu vinha integrar. Me lembrou o clipe de “No Rain”, da banda californiana Blind Melon – aquele em que a “abelhinha” se alegra ao encontrar, enfim, seres iguais a ela -, mas sem a parte da alegria. Fiquei deitado em uma maca suspensa, segurando o riso, e não demorei para ir embora. Um auxiliar de enfermagem veio me ajudar a deixar a sala, o que eu fiz caminhando de costas, de olho nele, que carregava displicentemente o soro que eu ainda tomava, pois ele podia a qualquer momento esticar o fio, arrancando a agulha abruptamente do meu braço. Nada de moonwalking.
Enquanto estava deitado naquela sala de cirurgia, com a boca sendo perfurada, tive receio pela demora. “Será que esses caras estão conversando com os olhos e com gestos?”, haveria algum problema? Deu merda na cirurgia? Tensão, flatulência, desconforto. Tentei então pensar em coisas agradáveis, minha esposa, meu baixo Epiphone Viola, Nietzsche, meus amigos e amigas. Imaginei se a falta de um dente modificaria, ainda que imperceptivelmente, minha voz. Lembrei da vez em que o som de ensaio do Stereoscope ficou consideravelmente diferente depois que um sofá velho foi retirado do estúdio. Pensei nisso tudo e, enquanto pensava, tinha consciência automática desses pensamentos, que iam sendo organizados e ressignificados instantaneamente, como se eu já estivesse escrevendo este texto.
Semana que vem eu retorno pra retirar os pontos da sutura. Ah, tenho também que fazer um canal. Se este render alguma história boa, ou seja, se o procedimento não for, como se espera, “o canal”, volto a relatar aqui. Até mais.